terça-feira, 13 de maio de 2014

Raiz amarga

Olhando para esta terra onde fixei raízes
Ainda me pergunto se estão profundas
Neste buraco cercado de morros, vivo
Nas incontáveis situações do dia a dia

O velho que usa sempre as mesmas roupas, cospe
Enquanto outros ajuntam o sustento do chão
E o que falar do cão que é tratado como rei
Ódio, mentiras, ambição olhando por trás do portão

Segura-se no seu cajado enquanto o rebanho marcha
Envenena teu peixe, abandona teu leito e te salva
Se por defeito outro fruto não maturado for eleito
Meu direito civil flutuará nas margens rio

E na fila cotidiana do monóxido aqui estamos
Monossilabicamente seguimos em frente sem fé
Enquanto a cabeça não descansa e nem os pés
Continuo a me perguntar em que terra viemos parar

Michel Goulart

Xadrez pela primeira vez

Como uma tênue linha entre amor e ódio
Outono trouxe tons acinzentados lá fora
O que antes parecia distante
De repente tornou-se inevitável

Tão confuso quanto xadrez pela primeira vez
Entendeu-se as regras e as rotinas
E por dentro da daquela retina eu via
Um longínquo mundo que não existia

De fora para dentro como se fosse normal
Um favor talvez sem tentar outra vez
E no final das contas segurar as pontas
Enquanto a vida desconta

Assim cada passo ecoava pela ponte
O barulho das ruas parecia não haver
Enquanto olhava para trás sem mais
Um singelo adeus, um breve jamais

Michel Goulart

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Não era bom em nada

O garoto a bola cortava
A sua lamina enferrujava
Uma voz exclamava:
"Ele não é bom em nada"

Até o violão que ele tocava
Eram todas notas decoradas
Ele sempre desafinava
Afinal, "Ele não era bom em nada"

Uma formosura o apaixonava
Mas ele não se declarava
As palavras ele engasgava
Ele não era bom em nada

Um dia acordou enquanto sonhava
Percebeu que não jogava
Não cantava e não amava
entendeu enfim, nao era bom em nada


Michel Goulart

Enquanto você dormia

Enquanto você sonhava
Minhas penas te aqueciam
Pé por pé, barulho não se ouvia
Outono de outrora fora embora 

Pintei o ceu de laranja
Aperando bem os olhos
Na gelida sensanção da brisa
O cheiro de madeira exalava

O pranto da rã trouxe a noite
O frio congelou as memórias
Eu te aqueci em minhas asas
Enquanto você sonhava

Na geada de julho
Minhas costas queimadas de gelo
Dia após dia eu te aquecia
Enquanto você dormia

Michel Goulart

O Alquimista

Como pólvora em chamas
Brilho ofuscando seus olhos
Deixo um rastro de luz 
Trazendo memórias de infância

Como quando desenhávamos com giz
O céu e o inferno a sete pulos 
Ou cavamos a sete palmos
Para enterrar nossos ossos

Sinto falta do cheiro de terra molhada
De como a brisa tocava uma canção
Agora que tudo virou carvão
Troquei o sim pelo não

E as horas que passavam voando 
Hoje sobrevoam mais lentas
A brisa virou vento
O vento virou furacão


Michel Goulart